literoj

(#01 – segredo nosso)

todo dia quando o sol levanta
um monte de gente se espreguiça e vai trabalhar

tem homem querendo ficar rico
às custas do suor das costas de outros homens

se estou certo então eu me repito
até que alguém me prove que a verdade era o próprio contrário

faz de conta que é segredo nosso
mas disseram por aí que a gente ainda pode até sonhar

com um mundo muito mais bonito
de amor e paz

nada além, nada mais

toda noite quando a lua vem
um monte de gente descansa e pode até sonhar

 

(#02 – debaixo de um papelão)

essa noite eu vou dormir debaixo de um papelão
o teto ficou muito caro para o meu pouco salário

e essa noite eu vou dormir debaixo de um papelão

segunda-feira eu trabalhei
comprei um quilo de feijão
terça-feira eu trabalhei
quarta quinta sexta-feira
pra pagar a prestação
só não paguei porque não deu

essa noite eu vou dormir debaixo de um papelão

(#03 – até o sistema kapitalista acabar)

socorro meu Deus, me sinto perdido
me debatendo feito um peixe fora d´água de tão desiludido
pra quê ser gentil, se é o dinheiro que importa?
que a pessoa deve desde que nasceu e até depois de morta

eu só queria me enrolar num cobertor
até o sistema kapitalista acabar

mãe terra chorou se sentindo uma palhaça
vendo um irmão vender pro outro irmão o que ela tá dando de graça
e o rico bundão despreza o pobre encanador
até a hora da privada entupir na hora de fazer totô

eu só queria me enrolar num cobertor
até o sistema kapitalista acabar

vai continuar faltando terra pro cultivo
enquanto a câmara dos deputados for um latifúndio improdutivo
arroz e feijão seriam revolucionários
se ao invés de produtos comerciais fossem bens humanitários

eu só queria me enrolar num cobertor
até o sistema kapitalista acabar

eu ligo a TV e vejo um monte de bobagem
com tanta coisa pra se resolver vocês aí de sacanagem
não pode doutor, tá muito caro esse remédio
qual é o preço dessa minha dor, ‘xeu ler na bula do remédio

eu só queria me enrolar num cobertor
até o sistema kapitalista acabar

olá, seu E.T. seja bem-vindo ao nosso mundo
somos apenas uma feira onde se compra e vende quase tudo
relógio pulseira governo tempo vaginas de luxo
pendrive idéia semente de flor pedaço de bicho

eu só queria me enrolar num cobertor até o sistema kapitalista acabar

cansado demais pra seguir adiante
com esse espírito cutucador me cutucando a todo instante
te afasta de mim, minha alma não será vendida
por mais difícil que seja viver eu não te vendo a minha vida

eu só queria fazer coisas por amor

 

(#04 – apago a luz)

minha batata está fritando na panela ao óleo de grãos da soja
ceifada na terra adubada pelo sangue de um agricultor
de santarém

apago o fogo mas acendo um cigarro e quando dou um trago
vejo a fumaça fedorenta da garganta de milhões de chaminés
no céu azul

eu preferia estar fumando um baseado mas a lei proíbe
relaxo na cachaça e proponho um brinde ao miserável lavrador
da cana

que a vida dele também foi privatizada por um preço baixo
e não nos deram nem ao menos o direito de resposta na tv
aberta

se até a lâmpada acendida traz lembranças de uma voz distante
do pescador que não tem peixes pois o rio a barragem assoreou
pra alimentar

o monstro urbano
que coisifica tudo eu me recuso a fazer parte
e apago a luz

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